Nos últimos anos, a medicina tem acumulado evidências de que o envelhecimento não começa aos 60 anos, mas muito antes, ainda nos primeiros anos de vida. O Dr. Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, aponta que compreender o envelhecimento como um processo que atravessa toda a trajetória humana é fundamental para reorientar tanto as políticas públicas quanto as estratégias clínicas voltadas à terceira idade.
Convidamos você a conhecer mais sobre o que a ciência revela quando olha para a velhice a partir da infância.
A programação metabólica nos primeiros anos de vida
O conceito de programação metabólica, consolidado nas últimas décadas pela epidemiologia e pela biologia do desenvolvimento, sustenta que exposições precoces a determinadas condições nutricionais, ambientais e psicossociais alteram de forma duradoura o funcionamento de órgãos e sistemas. Crianças que sofreram desnutrição nos primeiros mil dias de vida, por exemplo, apresentam maior predisposição à obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares na vida adulta e na velhice.
A partir do que analisa o doutor Yuri Silva Portela, esse fenômeno tem implicações diretas para regiões como o Sertão nordestino, onde a vulnerabilidade alimentar na infância ainda é uma realidade para parcelas significativas da população. O idoso que hoje vive nessas comunidades carrega, em seu organismo, as consequências de décadas de acesso precário a nutrição adequada, saneamento e cuidados básicos de saúde, fatores que moldam seu perfil de adoecimento e sua resposta às intervenções clínicas.
Estresse tóxico e seus efeitos sobre o envelhecimento
Além das condições nutricionais, a exposição a situações de estresse severo e prolongado na infância, seja por violência doméstica, negligência, pobreza extrema ou instabilidade familiar, produz alterações neurobiológicas com consequências de longo prazo. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, responsável pela regulação do cortisol, pode ser permanentemente desregulado por experiências adversas precoces, aumentando a vulnerabilidade do indivíduo a transtornos de ansiedade, depressão e doenças inflamatórias na vida adulta.

Yuri Silva Portela retrata que o idoso que viveu uma infância marcada por adversidades severas frequentemente apresenta um perfil clínico mais complexo, com maior carga de comorbidades e menor reserva funcional. Dessa forma, reconhecer essa trajetória durante a anamnese geriátrica não é exercício de curiosidade biográfica, mas ferramenta clínica que orienta condutas mais precisas e humanizadas.
Epigenética: como o passado se inscreve no DNA
A epigenética oferece uma das explicações mais fascinantes para a relação entre infância e envelhecimento. Mecanismos como a metilação do DNA e a modificação de histonas permitem que experiências vividas deixem marcas moleculares que alteram a expressão de genes sem modificar a sequência genética em si. Algumas dessas marcas são transmissíveis entre gerações, o que significa que condições adversas vividas pelos pais podem influenciar o perfil de saúde dos filhos.
Conforme sustenta o doutor Yuri Silva Portela, esse campo de conhecimento reforça a urgência de políticas de proteção à primeira infância não apenas como investimento social, mas como estratégia de saúde pública com impacto intergeracional. Cuidar bem das crianças de hoje é, em sentido literal e biológico, cuidar dos idosos de amanhã.
O que a geriatria pode fazer com essa informação?
Para a prática clínica geriátrica, reconhecer o peso da trajetória de vida sobre o estado de saúde atual do paciente amplia o horizonte diagnóstico e terapêutico. Uma avaliação geriátrica abrangente deve incluir não apenas o levantamento de doenças e medicamentos em uso, mas também uma leitura das condições socioeconômicas e ambientais que marcaram a infância e a vida adulta do paciente.
Por fim, como ressalta o Dr. Yuri Silva Portela, essa abordagem longitudinal e contextualizada é o que diferencia a geriatria de uma medicina que trata apenas sintomas do presente. O idoso não é apenas o que está diante do médico naquele momento, mas o resultado acumulado de tudo que viveu, sentiu e enfrentou ao longo de décadas. Logo, reconhecer isso é o primeiro passo para um cuidado verdadeiramente integral.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez