O Brasil ultrapassou, em setembro de 2026, a marca de 1 milhão de veículos leves eletrificados emplacados, e a leitura de David do Prado, vendedor com mais de 10 anos de experiência no setor automotivo e de proteção veicular, é de que o avanço já pressiona a forma como a proteção veicular calcula riscos. Eletrificados são modelos movidos por motor elétrico, sozinho ou combinado a um motor a combustão, e incluem os 100% elétricos e híbridos. Segundo a ABVE, eles responderam por 22% das vendas de veículos leves em agosto, ante 9,4% um ano antes.
O que os números dizem sobre o mercado de eletrificados?
A expansão é recente e acelerada. Mais de um terço do milhão de eletrificados emplacados no país foi vendido apenas em 2026, e a ABVE projeta cerca de 450 mil unidades no ano, o dobro de 2025. Considerando só 2026, os 100% elétricos lideram o segmento, com 44% das vendas, seguidos pelos híbridos plug-in, com 36%.
Para a proteção veicular, a mudança vai além da estatística. Durante décadas, o cálculo de risco das associações se apoiou em um histórico consolidado de carros a combustão: preço de peças, tempo de reparo, índice de roubo por modelo. Com os eletrificados, boa parte dessas referências ainda está sendo construída, e o rateio precisa lidar com custos que o grupo ainda não conhece bem.
Por que reparar um elétrico custa diferente?
O componente mais caro de um carro elétrico é a bateria de tração, que pode representar parcela significativa do valor do veículo. Uma colisão que atinja a parte inferior do carro, onde a bateria costuma ficar, pode exigir inspeção especializada mesmo sem dano aparente. Como aponta David do Prado, é nesse ponto que um acidente considerado leve pode se transformar em um prejuízo alto.
A mão de obra também pesa. Reparos em sistemas de alta tensão exigem técnicos treinados e oficinas equipadas, ainda concentradas nos grandes centros. Peças de marcas que chegaram recentemente ao país podem ter prazo de entrega maior, o que alonga o tempo do veículo parado e, em alguns casos, encarece o conserto. Para um grupo mutualista, cada dia a mais de oficina e cada peça importada entram na conta dividida entre todos.

Como a proteção veicular se adapta aos eletrificados?
As associações respondem de formas diferentes. Algumas aceitam eletrificados com as mesmas regras dos carros a combustão; outras criam categorias específicas, com mensalidade e cota de participação próprias, ou exigem vistoria mais detalhada na adesão. Há ainda entidades que limitam o valor máximo dos veículos aceitos, o que acaba excluindo modelos mais caros.
Segundo David do Prado, a tendência é que o rateio passe a refletir melhor o perfil de cada grupo de veículos, separando o custo dos elétricos do custo dos carros convencionais. Sem essa separação, quem tem um carro a combustão acabaria financiando parte de um risco que não é seu, e quem tem um elétrico poderia encontrar regras pouco adequadas ao próprio veículo.
O que o dono de um eletrificado deve verificar?
Antes de aderir, vale conferir se o regulamento cita expressamente a bateria e os componentes de alta tensão entre os itens cobertos. Também é importante saber se a indenização segue a tabela Fipe, como nos demais veículos, e se a entidade tem rede de oficinas habilitadas para o tipo de reparo que o carro pode exigir. Itens como carregador portátil e cabo de recarga, frequentemente alvo de furto, merecem atenção separada, já que nem sempre são tratados como parte do veículo.
O cenário regulado ajuda nessa checagem. Com a Lei Complementar nº 213/2025, as entidades de proteção patrimonial mutualista passaram a operar sob supervisão da SUSEP, e associações como a Aproest Proteção Veicular atuam em um mercado em que a clareza das regras para novas tecnologias tende a pesar na escolha do consumidor. Na avaliação de David do Prado, o eletrificado deixou de ser nicho, e a proteção veicular precisa acompanhar essa virada no mesmo ritmo do mercado automotivo.