Projeção da Confederação Nacional do Comércio aponta alta real de 2,9% nas vendas da data, impulsionada por um mercado de trabalho mais aquecido e queda no desemprego.
Faltando poucos dias para o Dia dos Pais, o comércio brasileiro se prepara para uma das datas mais relevantes do calendário de vendas do ano. Segundo projeção da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) citada pela Forbes, a data deve movimentar R$ 8,52 bilhões no varejo em 2026, um avanço real de 2,9% em relação ao ano anterior, já descontada a inflação. O resultado mantém o Dia dos Pais na quarta posição entre as datas comemorativas que mais giram dinheiro no comércio brasileiro.
O que explica o otimismo para a data
O principal fator por trás da expectativa positiva é o comportamento recente do mercado de trabalho. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE, citados na mesma reportagem, a taxa de desocupação ficou em 5,6% no trimestre encerrado em maio, o menor patamar para o período em 13 anos. Ao mesmo tempo, a massa real de rendimentos, ou seja, o total de salários em circulação entre as famílias já corrigido pela inflação, cresceu 5,0% na comparação anual.
Esses dois indicadores combinados ajudam a entender por que o varejo aposta em um Dia dos Pais mais forte mesmo em um cenário de juros ainda elevados. Mais pessoas empregadas e com renda real crescente tendem a manter um nível de consumo mais estável, ainda que seletivo, especialmente em datas comemorativas que carregam um apelo afetivo e não apenas prático.
Nem todos os setores vão na mesma direção
Apesar do resultado positivo no agregado, a projeção não é uniforme entre os segmentos. Na Fecomercio-SP, que representa o maior mercado consumidor do país, a expectativa é de uma alta mais modesta, de 0,7% nas vendas de agosto no varejo paulista, o equivalente a R$ 567 milhões a mais do que no mesmo mês de 2025. Farmácias e perfumarias devem liderar o crescimento, com alta projetada de 3,7%, seguidas por lojas de roupas, que devem crescer 1,7%, um movimento associado ao avanço do autocuidado masculino como categoria de presente.
Do outro lado, móveis e decoração devem recuar 1,3% e a linha de eletroeletrônicos deve cair 0,8%, à medida que o consumidor evita contrair novas dívidas para presentes de maior valor. Essa divisão entre categorias que crescem e categorias que recuam reflete um padrão mais amplo do varejo brasileiro em 2026: o consumidor continua comprando, mas direciona o orçamento com mais critério, priorizando itens de menor valor unitário e maior recorrência de uso.
Um consumidor mais seletivo redesenha as vendas
Esse comportamento não é exclusivo do Dia dos Pais. Segundo análise da Exame com base em dados da NielsenIQ, a cautela nas compras se tornou uma característica estrutural do consumo em 2026, com o público mais atento ao valor percebido de cada produto e ao impacto da compra no orçamento familiar. Ainda assim, o varejo brasileiro registrou recorde na série histórica do IBGE em fevereiro, com crescimento de 0,6% no mês, o que indica que o volume de vendas segue em alta mesmo com a rentabilidade das empresas sob pressão.
Esse cenário paradoxal, de volume crescente e margens mais apertadas, tende a se manter ao longo do segundo semestre. Fatores como a Copa do Mundo de 2026 e o calendário eleitoral também devem influenciar o fluxo de consumidores em shoppings e centros comerciais em determinados períodos, já que parte do público tende a priorizar o consumo em casa durante grandes eventos esportivos e momentos de maior incerteza política.
Para o pequeno e médio varejista, o desafio nos próximos meses vai além de vender bem: envolve controlar estoque, negociar prazos de crédito e ajustar o calendário promocional a um consumidor que pesquisa mais antes de decidir. Datas como o Dia dos Pais continuam funcionando como um termômetro importante desse equilíbrio, mostrando que a demanda existe, mas que ela recompensa quem consegue equilibrar preço, conveniência e confiança na hora da compra.