Nova cobrança entrou em vigor em 1º de julho e encerra isenção que beneficiava encomendas de baixo valor vindas de fora do bloco europeu.
A União Europeia começou a aplicar, a partir de 1º de julho, uma nova tarifa fixa de 3 euros sobre encomendas de comércio eletrônico de baixo valor enviadas por vendedores de fora do bloco, medida que atinge diretamente plataformas como Shein, Temu e AliExpress. Até então, produtos avaliados em até 150 euros entravam na Europa sem o pagamento de qualquer tarifa alfandegária, um mecanismo que impulsionou o crescimento acelerado dessas plataformas nos últimos anos. A pergunta que muitos consumidores fazem agora é direta: por que a Europa decidiu acabar com essa isenção justamente agora, e o que isso significa na prática para quem compra nesses sites?
Segundo a Comissão Europeia, o volume de pequenas encomendas isentas de tarifa disparou nos últimos anos, saltando de 1,4 bilhão de pacotes em 2022 para 5,8 bilhões em 2025. Para as autoridades do bloco, esse crescimento tornou o modelo antigo insustentável, tanto do ponto de vista da fiscalização aduaneira quanto da concorrência com o varejo tradicional europeu. A nova cobrança é apresentada como uma forma de equilibrar as condições de disputa entre empresas locais e plataformas estrangeiras que, segundo Bruxelas, usaram a isenção em escala industrial para ganhar vantagem competitiva.
Como funciona a nova tarifa e quem sente o impacto primeiro
A cobrança de 3 euros incide sobre cada classificação aduaneira presente em uma encomenda, e não sobre o pacote como um todo. Isso significa que uma remessa contendo, por exemplo, roupas, brinquedos e eletrônicos pode acumular uma tarifa total de 9 euros, já que cada categoria de produto é taxada separadamente. Por outro lado, uma encomenda formada exclusivamente por itens de uma mesma categoria, como diversas peças de roupa, recebe apenas a cobrança básica de 3 euros, independentemente da quantidade de unidades incluídas.
A medida tem caráter temporário e deve vigorar até 1º de julho de 2028, quando está prevista a entrada em operação da nova Autoridade Aduaneira da União Europeia. A partir dessa data, o bloco pretende adotar tarifas alfandegárias calculadas de forma mais específica, de acordo com a classificação de cada produto. Até lá, a Comissão Europeia também tornará obrigatório, a partir de novembro de 2026, o fornecimento de dados de referência mais detalhados sobre os produtos importados, com o objetivo de ampliar a rastreabilidade das mercadorias e reduzir a entrada de itens sem documentação adequada. Levantamentos de inspeções realizadas em 2025 identificaram que mais de 60% dos itens analisados apresentavam problemas como rotulagem incompleta ou ausência de informações de segurança exigidas pelas normas europeias.
O que muda para quem compra e as possíveis repercussões no Brasil
Entre as plataformas mais afetadas, a AliExpress, controlada pelo grupo chinês Alibaba, já informou que passará a exibir nas páginas de produto o aviso de que o preço inclui tarifas e impostos, quando aplicável. A Amazon, por sua vez, destacou que a maior parte de suas remessas para consumidores europeus já parte de centros de distribuição localizados dentro do próprio bloco, o que reduz o impacto direto da nova cobrança sobre suas operações. Até o momento, Shein e Temu não divulgaram posicionamento oficial sobre a mudança, embora especialistas em comércio eletrônico apontem que algumas dessas empresas já vêm ampliando armazéns dentro da Europa como estratégia para reduzir os efeitos da nova tarifa.
A medida europeia também chama atenção pelo contraste com o cenário brasileiro. O Brasil zerou neste ano a cobrança que ficou popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”, instituída para taxar compras internacionais de baixo valor e que havia gerado forte repercussão entre consumidores brasileiros que utilizam essas mesmas plataformas asiáticas. Enquanto a Europa endurece as regras para conter o volume de importações de baixo custo, o mercado brasileiro segue com um modelo mais permissivo para esse tipo de compra, o que reforça a atratividade dessas plataformas para o consumidor local. Especialistas em comércio internacional avaliam que mudanças regulatórias como essa tendem a se espalhar entre diferentes países ao longo do tempo, à medida que blocos econômicos buscam formas de equilibrar a concorrência entre o varejo doméstico e as plataformas estrangeiras de baixo custo.
Para o consumidor brasileiro que compra internacionalmente, a movimentação europeia funciona como um sinal da tendência regulatória que vem ganhando força em diferentes partes do mundo. Embora a tarifa não afete diretamente as compras feitas a partir do Brasil, ela mostra que o modelo de vendas ultrabaratas praticado por essas plataformas está sendo questionado em mercados cada vez maiores, o que pode, no médio prazo, influenciar preços, prazos de entrega e a própria estratégia comercial dessas empresas em escala global.
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